Vento No Litoral
Legião Urbana
Composição: Renato Russo
De tarde quero descansar
Chegar até a praia e ver
Se o vento ainda está forte
E vai ser bom subir nas pedras
Sei!
Que faço isso prá esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando
Tudo embora...
Agora está tão longe vê
A linha do horizonte
Me distrai
Dos nossos planos
É que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos
Na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui
Dentro de mim...
Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil sem você
Porque você está comigo
O tempo todo
E quando vejo o mar
Existe algo que diz
Que a vida continua
E se entregar é uma bobagem...
Já que você não está aqui
O que posso fazer
É cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos
Lembra que o plano
Era ficarmos bem...
Eieieieiei!
Olha só o que eu achei
Hum! Hum! Hum! Hum!
Cavalos-marinhos...
Sei que faço isso
Prá esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando
Tudo embora...
[Alguns fragmentos dessa música são para o senhor: Meu Avô] ...
O senhor nunca disse palavras carinhosas, nunca disse que amava, nem que gostava. O senhor sempre teve aparência durona, eu não percebi antes, mas na verdade não era bem isso. O senhor ensinou que demonstrar é mais importante do que falar. Será que eu demonstrei corretamente? Questiono se não deveria ter sido mais clara, ao menos uma vez. Questiono se o fato de não fazer isso, foi porque eu mesma não tinha me dado conta de que o tempo, talvez, não fosse muito amigável.
É estranho escrever isso para o nada. É estranho escrever isso depois que o senhor se foi. Sei que eu não te diria isso pessoalmente, mas será que o senhor percebeu o que nem eu tinha percebido?
Demorou para a ficha cair e quando aconteceu, foi como se o concreto tivesse ficado com um buraco com sua forma. Eu me surpreendi. O senhor me surpreendeu. É difícil confessar, mas nunca pensei que esse buraco fosse do tamanho que ele é. Nunca imaginei que ia doer como dói. Achei que pelo tempo que passamos afastados seria mais fácil. Mas não foi. Aprendi que o tempo que passamos sem nos ver, nunca te fez ausente. Só me dei conta da realidade, quando cheguei em sua casa. Aquela imagem está bem fixa em minha memória: o senhor num caixão. Como eu poderia imaginar que alguém tão forte, que não conseguia ficar quieto, que reclamava quando não te deixavam fazer suas coisas, iria estar ali, justamente ali? Foi então, só então, que eu acreditei: o senhor não iria voltar... Sempre foi tão forte... se tivesse que voltar, não ficaria tanto tempo ali...
Falar em acreditar, o senhor acredita que, só agora soube que estava torcendo por mim? Duas ou três semanas antes, como o senhor mesmo disse, conheceu parte de mim que ainda não tinha tido a chance de perceber (este foi o ponto em que a distância atrapalhou). Ainda bem que pude te orgulhar um pouco. Soube que se orgulhou de mim quando lhe falei sobre os meus planos para o futuro. Que a partir daquele momento, o senhor me chamou de jovem decidida e disse que meu futuro era promissor. Queria tanto te dar o gosto de passar no concurso que estava fazendo no dia que o senhor se foi... não sei se isso vai ser possível, mas, pelo senhor, não deixei de comparecer no dia da prova, pelo senhor, mesmo sabendo que não iria me concentrar, eu tentei.
Alguns fragmentos me perseguem e, assim será, até meu último instante... Lembro:
- De seus planos com o sítio, de como gostava de nos ver passeando por lá, de como gostava de nos mostrar frutas e bichos.
- Da sua mania de guardar bagulhos, como diziam.
- Do seu prazer em consertar tudo.
- Casa de baixo para casa de cima: "Vovô! Quero bala!".
- "Vovô! O senhor sabe consertar minha televisão?".
- "Vovô! Vamos fazer a brincadeira da mesa?!".
- "Quero ver o quartinho".
Lembro também:
- Quando me escondia atrás da cortina e o senhor, em conjunto com minha tia, "não conseguia" me achar.
- E minha primeira queda de bicicleta? Pedi para o senhor colocar as rodinhas para eu não cair novamente. O senhor recusou, me ajudou a levantar e me empurrou para outra tentativa. Se não fosse seu ?não?, talvez ainda não soubesse andar de bicicleta.
Nossa! O senhor comprou um computador para quando fôssemos visitá-lo e para se comunicar com a gente por msn. Dói muito ainda ter seu e-mail entre os meus contatos. Nem chegamos a nos falar...
Me disseram que o senhor ainda iria fazer a piscina que planejava. Mas isso não foi verdade...
Acho que o senhor deixou muitas reticências ...
...
Queria que estivesse aqui. Ou que estivesse em Aquidabã... Queria apenas saber que poderia passar muito tempo, mas que ainda iria te ver, que ainda ia poder contar com o senhor. Porque apesar do tempo que passamos longe um do outro, o que me fazia bem era essa certeza.
:: Enviado por
Dulce - 17:38 ::
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